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VIE EN ROSE

Desde 1989 a ver a vida em rosa.

22
Mai15

Um novo sorriso

Há exactamente um ano atrás o meu sorriso mudou para sempre. Depois de algumas noites mal dormidas, acordei depois de uma noite de sono bastante razoável. Sentei-me na beira da cama e bebi um pouco de água, sentindo alguma água sair pelo canto esquerdo da minha boca. Acabada de acordar pensei que tinha a cara um pouco adormecida, como às vezes acontece com as nossas mãos ou braços. Levantei-me e fui à casa de banho onde constatei que algo não estava bem. Olhei-me ao espelho e tentei abrir a boca ao máximo, e verifiquei que apenas metade da minha boca abria por completo. Vários pensamentos me assolaram entre eles o seguinte "Tenho 25 anos, não posso estar a fazer um AVC.". Sem saber o que me estava a acontecer dirigi-me às urgências com a minha amiga Joana.

Nas urgências fui imediatamente atendida assim que olharam para o meu rosto com o lado esquerdo completamente descaído, e passado uns minutos já estava numa maca à espera de ser examinada. Após vários exames físicos, o diagnóstico foi lançado: uma paralisia facial periférica, conhecida como Paralisia de Bell.

A Paralisia de Bell é uma paralisia do nervo facial, nervo este que controla todos os músculos que fazem parte do nosso rosto e que estão associados à mímica facial, à produção de lágrimas e saliva. Trabalhando eu directamente na àrea da saúde desconhecia por completo esta patologia, apesar de ser algo frequente como me explicaram no serviço de urgência. Regressei a casa com corticóides, um anti-viral e lágrimas artificiais, além da recomendação de marcar uma consulta de Otorrinolaringologia, visto que tinha tido dores de garganta e de ouvido nos dias precedentes à paralisia. Foi-me dito também que a recuperação dar-se-ia normalmente num mês e que poderia precisar de sessões de fisioterapia. Um mês de recuperação pareceu-me bastante longo... apesar disso fiquei descansada por não ter tido o famoso acidente vascular cerebral!

Geralmente de início súbito e de origem idiopática, ou seja sem causa conhecida (o que foi o meu caso), a Paralisia de Bell é causada devido à inflamação do nervo facial  como resposta a uma infecção viral, uma compressão ou falta de irrigação sanguínea. Esta leva à impossibilidade de movimentar os músculos do lado afectado. Sorrir, fechar ou pestanejar o olho, bochechar, assobiar, dar um beijinho, encher as bochechas de ar, enrugar a testa ou o nariz... todas estas expressões faciais e mais algumas desaparecem por completo, deixando o lado do rosto afectado flácido. Ainda que metade do rosto fique completamente sem expressão, a sensibilidade permanece. Foi exactamente assim que me encontrei não um mês como me anunciaram, mas vários meses. Meses em que o simples facto de rir me encomodava, devido à cara monstruosa que eu apresentava; meses a ter uma pálpebra que não fecha e o mínimo pedacinho de pó que entrasse no olho deixavam-me com a visão turva e com dores e nem as lágrimas artificiais me safavam; comer e principalmente beber tornou-se algo que tinha de realizar com cuidado para não me babar, o que na presença de outras pessoas nem sempre é algo confortável; não conseguir pronunciar correctamente determinadas palavras; e muitas outras situações que levaram a minha paciência, esperança e fé ao limite. 

Nas consultas de Otorrinolaringologia onde fui acompanhada indicaram-me que este problema poderia levar seis dias, seis semanas ou então seis meses de recuperação. No meu caso pessoal calhou-me os seis meses mais longos da minha vida. Seis meses em que lutei para reecontrar acima de tudo uma aparência normal. Algumas sessões de fisioterapia e exercícios em casa, aos poucos fui sentindo que os meus músculos ganhavam uma nova vida, e cada movimento por mais pequeno que fosse era uma grande vitória. 

Actualmente olho para trás com uma lágrima no canto do olho e vejo o quanto difícil foi essa fase onde a minha paciência, esperança e fé andavam completamente abaladas. Porém hoje olho para a frente mais forte e com um novo sorriso, pelo qual eu lutei!

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